O Ministério da Educação afegão decidiu retirar
quatro décadas da história do país do currículo escolar
Tanto quanto o presente, o passado do Afeganistão foi marcado por invasões e conflitos, porém o Ministério da
Educação aprovou um novo currículo escolar de História, que pretende apagar
alguns dos seus momentos mais conturbados.O material, que já começou a ser
distribuído nas escolas do país, aparece com um hiato referente às últimas
quatro décadas. É como se a história do país parasse nos anos 70.
Diante de inúmeras discordâncias em relação ao
início da guerra civil ou até mesmo a descrição dos grupos étnicos do país, os
educadores responsáveis pelo material sugeriram que o período após a
destituição, em 1973, do rei Mohammed Zahir Shah fosse omitido. Assim, não há
detalhamento sobre como Shah foi derrubado pelo seu primo Sardar Mohammad Daud
Khan, primeiro-ministro entre 1953 e 1963.
Além disso, os diversos golpes dos anos 70, a
invasão soviética em 1979, os governos comunistas em Cabul, a presença dos
Estados Unidos desde 2001 e da Otan nem aparecem no novo currículo. Já a guerra
civil entre facções mujahedin na década de 90, após retirada dos soviéticos, e
que teve como conseqüência a criação do grupo fundamentalista islâmico Talibã é
apenas citada.
A justificativa para decisão foi a de eliminar, do
aprendizado de crianças e jovens, as divisões étnicas e culturais que cercam a
nação asiática e assim, tentar modelar um futuro melhor. Farooq Wardak,
ministro da Educação do Afeganistão, ao defender o novo currículo, afirma que
este não possui “ênfase política ou confessional”, o que de certa forma, retiraria
visões e ideologias extremistas que permeavam os antigos livros. Porém, Ana
Alice Ferreira, doutora em História Social da Cultura pela PUC-RJ faz uma
ressalva: “A história de qualquer país é construída em cima dos interesses de
uma camada da sociedade, portanto a atitude do governo afegão se enquadra nessa
linha, a história não está isenta dos preconceitos sociais e das intenções
políticas.”
Em um país onde a liberdade de expressão é um tanto
quanto limitada e o acesso à internet é restrito, a conduta do governo afegão
pode ter uma imagem negativa. O professor afegão Abdul Qodoas, que foi
entrevistado pela BBC no país, adverte: "Um dos principais objetivos de
estudar História é não repetir os erros do passado. Se os alunos não aprenderem
sobre a violência do passado, como vão evitá-la no futuro?" Ou seja, induzir
os jovens a um ensino fragmentado, excluindo, em partes, a possibilidade de
conhecimento dos seus antecedentes e de entendimento do próprio presente do
país pode não trazer a desejada união a que Farooq Wardak se refere.
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