O
consumo de álcool é socialmente aceito, mas o exagero pode torná-lo um vício
As bebidas alcoólicas apresentam relação com um
hábito cultural em vários países e o Brasil não fica de fora. Aqui o consumo de
álcool é visto como prática social: os amigos se reúnem para beber, existem os
famosos happy hours e a bebida está
relacionada à festa e momentos de celebração.
Mas até quando beber
“socialmente” não é prejudicial à saúde? Em que estágio o consumo de álcool
vira doença?
A Organização Mundial da Saúde estabelece que o
padrão de consumo aceitável de bebidas alcoólicas é de até duas doses* por dia
para os homens e uma dose para mulheres, sendo que ambos não devem beber por
pelo menos dois dias na semana.
A diferença
entre a quantidade de doses entre os gêneros estaria relacionada ao baixo nível
da enzima álcooldesidrogenase no estômago das mulheres, o que faz com que a
concentração de álcool no sangue delas seja maior se comparada com homens que
ingerirem a mesma quantidade de bebida.
Já o professor doutor Sandro Caramaschi, do
Departamento de Psicologia da UNESP Bauru, entende que, por ser uma droga
lícita, é difícil distinguir quando o consumo de álcool está relacionado apenas
a uma prática social e quando este se torna exagerado a ponto de se desenvolver
o alcoolismo.
Ele também comenta que o período de produção de
dependência do álcool é muito maior que o de outras substâncias, podendo
demorar anos. E descarta a maior propensão de desenvolvimento da doença em
determinada faixa etária ou gênero: “isso não existe, o que se verifica é que o
consumo de álcool está aparecendo cada vez mais cedo e cada vez mais em
mulheres(...)”.
Caramaschi aponta dois determinantes para
diagnosticar a doença. Um deles seria de caráter vivencial, ou seja, quando a
bebida passa a interferir na convivência social e familiar do indivíduo. Outro
método de diagnóstico é o uso de testes, como o chamado AUDIT (sigla em inglês
para Teste de Identificação de Transtornos no Consumo de Álcool), realizado
pela OMS.
O teste define que há diversas formas de uso
excessivo da bebida, como por exemplo altos níveis de consumo por dia, momentos
freqüentes de intoxicação e o consumo que leva à dependência. Também cita que o
estágio de dependência caracteriza-se por um conjunto de fenômenos
comportamentais, psicológicos e cognitivos que se desenvolvem após repetido uso
da substância em questão.
Assim, neste ponto, é normal a pessoa desenvolver um
desejo incontrolável pela bebida, o consumo inconseqüente e até mesmo a
inversão de prioridades em sua vida, deixando de lado outras atividades para
poder beber. A dependência alcoólica agrava e pode ser fator causador de outras
doenças como gastrite hemorrágica, pancreatite, alterações no fígado, perda de
memória e outros danos cerebrais. Nas mulheres, vem se verificando um novo tipo
de anorexia associada ao álcool, a “anorexia alcoólica”.
Há controvérsias sobre a possibilidade de cura da
doença, alguns grupos acreditam que um indivíduo que um dia já foi dependente
do álcool, será sempre alcoólatra e o tratamento para tal vício seria a total
abstinência, outros defendem que pode haver um controle no consumo,
transformando um alcoólatra em um “bebedor social”.
*Uma dose-padrão de bebida alcoólica (350 ml
de cerveja, 150 ml de vinho ou 50 ml de destilado) contém, aproximadamente, 10g
de álcool puro